[Marchando]

A gente tenta esquecer. O tom da voz, o perfume, as manias, as brincadeiras e até o carro você tinha. Será que comprou outro?
Aliás, sabe aquela música que eu adorava cantar com você? Eu também tento esquecer.
Aliás, e finjo que não gosto mais daquela comida que você fazia pra mim.
Aliás, também esqueci como eu me sentia quando a primeira coisa que via era você ao meu lado.
E do café da manha que a gente adorava tomar na padaria.
E esqueci como você usa muito cotonete, e como era prático em tudo que se propunha a fazer.
Até que, sem mais nem menos, eu vi seu carro na rua. Era o mesmo.
Não, não me esqueci dele.
E fiquei triste.
Triste porque tudo me pareceu igual. Fiquei triste porque não sei por onde você anda.
Nessa hora, inclusive, percebi que não esqueci o número do seu telefone, que mesmo tendo apagado da minha agenda, ainda sei de cor e salteado, de trás para a frente.
Fiquei triste porque lembrei que aquela música que eu adorava cantar com você já não toca mais no rádio e que talvez agora você não tenha mais nenhuma forma de se lembrar de mim. Triste porque sinto saudade da sua voz e das suas manias. E porque não sei mais quanto tempo dura a sua caixa de cotonete.
Fiquei triste… fiquei triste porque nada mudou, exceto pelo fato de ter conhecido o seu desamor.
Respiro fundo. Algumas lágrimas caem e eu finjo que esqueci porque estou chorando. Engato a quarta marcha e continuo tentando achar um caminho para te esquecer.

Turismo Emocional [Ep. 4]

Nunca entendi o que acontecia com ela quando estava perto de mim.
Acho que ela tinha tanta vontade de fazer dar certo que trocava os pés pela mãos.
Ou talvez eu não tivesse essa ânsia toda.

Ela queria demais. E eu não tinha o que dar.
Não quis dar pra ela.
Me sentia cobrado. Era como se minha vida fosse um perde-perde com ela.

Eu queria tudo. Menos ela.
Eu queria fazer tudo. Menos com ela.
Eu queria ir. Sem ela.
Eu queria dormir. Sozinho.

Agora acho que eu sei o que acontecia com ela quando estava perto de mim.
Seu vazio e sua angústia tomavam conta do espaço que eu não quis e não fui capaz de preencher.

Turismo Emocional [Ep. 3]

Não vou negar, ele era divertido.
Muito mais com os outros do que comigo, mas mesmo assim divertido.
Na verdade, com os outros ele sempre era melhor.
Até quando bebia.
Aliás, limites ele não tinha.

Outra vez, ele bebeu demais.
Mesmo.
Quando isso acontecia, ele se transformava em uma nova pessoa.
Aquela que eu abominava.

Em uma certa hora, me cansei de ser ignorada, esquecida e rejeitada e o chamei de canto para perguntar o que estava acontecendo.
A resposta que eu tive foi algo mais ou menos assim:
Com os dedos apontados para o meu rosto e usando um tom de voz agressivo e desdenhoso, ele, enquanto cambaleava, me disse que eu nunca seria importante quanto as outras pessoas.
Disse que não perderia seu tempo comigo e que caso eu não tenha gostado de ouvir isso, que podia ir embora.

Na hora, eu fiquei chocada,
Mas não fui. Não sei porque, eu fiquei.
Confesso que achei que era papo de bêbado.
Preferi acreditar no que me era mais conveniente.
Mas não era papo.
Foi assim até o final.

Turismo Emocional [Ep.2]

O ano possui algumas datas especiais para os apaixonados.
Dia do aniversário de namoro, dia dos namorados, os próprios aniversários e o Natal.

Ela adorava comemorar cada uma delas, como se fosse muito importante.
E eu não ligava. Não ligava porque não me importava.
Ela achava que eu deveria me esforçar, porque não custava nada agradá-la.
Mas eu continuava não ligando.

Na ocasião, era Dia dos Namorados e, como sempre, eu tive outros compromissos mais importantes do que ela.
Disse que estaria livre depois de um horário qualquer.
Foi quando ela começou a me ligar.
Eu não atendi.
Não atendi por horas.
Quando me cansei de ver o telefone tocar, logo perguntei:

- O que você quer?
Ela só queria saber se a gente ia se ver, porque, afinal, era Dia dos Namorados.
Eu respondi que já tinha avisado que tinha um compromisso e que não sabia se queria encontrar com ela.
Ela insistiu. E eu odeio cobranças.
Ela falou que estava com fome, porque passava das 22h e ela ainda estava esperando por mim.
Talvez achou que eu tivesse planejado uma surpresa. Mas eu não faria isso por ela.

No fim, entre estress, lágrimas, gritos e ofensas, ela acabou sozinha num restaurante.
Estava toda arrumada, perfumada, cercada por casais apaixonados e pela solidão que eu não cansei de dar a ela.

Turismo Emocional [Ep. 1]

Não dá pra dizer que foi sempre assim.
Já foi muito bom, na verdade.
Me lembro uma vez, quando nos deitamos no chão da sala para ver algo nada-importante na TV, e, instintivamente, as mãos dele procuraram a minha.
Ele tinha necessidade de grudar em mim, de dormir abraçado, de ficar perto, de me agradar.
Era como se eu fosse especial.
O tempo comigo não parecia “perdido”, o que eu falava parecia interessante e a minha presença parecia indispensável.
Era uma sensação de que tudo estava completo. Eu, ele e nós.
Não sei quanto tempo foi assim.
Só sei que era a melhor coisa do mundo.
E foi dessa sensação que surgiram sentimentos novos, uma súbita arritmia que tomou conta dos batimentos, do pensamento e de tudo que corria dentro de mim.
Como se nunca fosse acabar.
Um eterno infinito de amor e plenitude.

Turismo Emocional [prefácio]

Já que eu tirei do ar alguns contos e fábulas (que se tornarão uma publicação), resolvi escrever uma nova série.
Ela se chama Turismo Emocional e fala sobre um relacionamento, como o próprio nome sugere.

“Tú no sabes quedarte. Llegas desordenas mi vida y te vas: Lo tuyo no es amor, es turismo emocional.”
Você não sabe ficar. Você chega, bagunça minha vida e logo se vai. Isso não é amor, é turismo emocional.
Edel Juárez, escritor mexicano.

 

Não teremos ordem cronológica,
apresento apenas cenas e fragmentos de uma relação onde, das duas partes envolvidas, talvez tenhamos um único vencedor.

 

Vamos dar as boas-vindas a relatos e momentos de intensas emoções.