Bastam alguns segundos

Para o que era não ser mais

Para fazer lágrimas do riso

Da sanidade, loucura.

Bastam alguns segundos para tudo se transformar

Para tudo fazer sentido

ou para não entender mais nada.

Alguns segundos para se esquecer uma vida

Alguns segundos para ignorar o respeito

e a gratidão.

Bastam alguns segundos para que os outros milhares não tenham valido nada.

Mais alguns para transformar todas as verdades em mentiras.

Basta uma noite com outra pessoa para o amor acabar

Como se jamais tivesse existido.

Alguns segundos para que tudo que era pra ser

Não ser mais.

Alguns segundos para fazer o que quiser com a vida.

Segundos que trazem mudanças inesperadas.

Segundos que vão se tornar minutos,

Horas,

Dias,

Anos,

Segundos que poderiam mudar o fim da história.

Segundos que poderiam deixar a história viver pra sempre.

Prova

Ser colocado a prova.

O tempo todo. De todos os lados. De todos os jeitos.

Como se fosse merecido.

Prove que você é capaz. Prove que você pode. Prove isso. Aquilo.

Prove dignidade. Inocência. Caráter.

Prove o que você é. E o que não é.

Prove a comida que você não gosta. E beba o que te faz mal.

Mas prove.

Prove que aprendeu e que sabe.

Prove que merece ou vale a pena.

Por que?

Tudo isso não prova nada.

Acreditar?

A gente acredita que as coisas vão melhorar.
Que vamos conseguir um emprego melhor
ou fazer aquela viagem dos sonhos.
Sim, a gente acredita.

A gente acredita que vai viver aquele amor
e que isso basta.
A gente acredita que amanhã pode ser melhor do que hoje.
Acredita que vai conquistar todos os objetivos.

A gente acredita que aprendeu
e que, a partir disso, iremos evoluir.
Acreditamos.

Acreditamos que todos os nosso sonhos são possíveis.
Que basta acreditar.
Que basta rabiscar.
Que basca escancarar isso nas ruas.
Que basta desenhar palavras de auto-ajuda.
Que basta fingir que tudo é possível.

Mas, não basta acreditar.
Não basta rabiscar planos por aí.
Não basta apenas ter sonhos.
Ninguém vive disso.

Não adianta crer.
Não adiante ter sonhos se não se mexer.
Não adianta achar que é culpa dos cosmos.
Acredite que para chegar até seus sonhos, existe uma longa jornada a ser percorrida.
Não acredite em nada que não seja em você.

 

Turismo Emocional [Ep. 6]

Eu queria falar sobre ela, mas não tenho vontade.
Ela já foi minha inspiração.
Já rabisquei, fiz rascunho, desenhei, fiz até arte final.
Tirei fotos de todos os seus ângulos.

O olho brilhava.
E eu achei que fosse ELA.
Mas, no meio do caminho percebi que não.
Simplesmente.

Eu não posso ser de ninguém. Não sei ter alguém.
Nos espaços que me sobram, a monogamia me assusta.
O amor me cobre de dúvidas.
E eu sinto que perco minhas asas.

Como se o ar se comprimisse.
E eu sei voar.
E o meu voo é alto.
Mas é isso.
Quero voar sozinho, porque sei que vou encontrar muitos amores em qualquer caminho.

Não preciso dela para isso.

Pegando emprestado

O problema é que você fala e eu acredito.
Anoto na minha agenda emocional e o dia já me pertence.
Mas o seu tem sempre horas a menos, compromissos demais e uma certa vontade arrastada.
Acontece que eu não preciso marcar, assinar embaixo e carimbar para pertencer. É só encontrar um momento livre que eu já me aconchego preenchendo seus minutos.
Mas você não se compromete.
Solta possibilidades mas as recolhe, como pipa sem vento pra voar.
E eu chego cheia de linha, cheia de cor e acabo me ferindo no seu cerol.
Porque expectativa é caminho sem volta. Ou voa ou magoa.
Temos voado pouco.
Já o tempo…

 

Por Anna Karina

Turismo Emocional [Ep. 5]

Um dia eu entendi que essa relação tinha se tornado autoflagelação.
Era como se eu pegasse uma chibata e desse nas minhas costas com a maior força que conseguisse.
Até sangrar, até não aguentar mais. Para doer, para marcar.

Talvez fosse uma forma dele entender que estava me machucando e que algumas cicatrizes nunca somem.
Só queria que ele me olhasse e percebesse. Só queria me enxergasse.
Mas, essas cicatrizes tinham sido feitas por mim. E ele nunca sentiu seu verdadeiro ardor.

Acho que aquilo virou algo doentio.
Uma busca incansável por seu amor, por seu amor correspondido.
Mas acontece que tal busca era incansável para mim.
E ele se cansou.

Eu tentei de tudo. Usei todos os clichês que conhecia na ânsia de encontrar algo que o fizesse me enxergar.
Gritei.
Berrei. Chorei.
Dei vexame.
Fugi.
Sorri. Fui indiferente.
Fui passiva. Ativa.
Discreta.
Louca. Compreensiva.
Amiga. Disposta.
E já nem sei mais quantas coisas fui.

A minha busca seria incansável. A dele não.
Eu fui tudo. E talvez a única coisa que deixei de ser fui eu mesma.
A tal busca incansável por um amor vivido, sentido e eternizado, cansou.

Ele nunca me enxergou, senão como tudo aquilo que fui. Não o que sou.
Não passo de todos os clichês, e todos eles sem sucesso.

Mas, acontece que aquelas chicoteadas que eu dava em mim, ainda estão sangrando.

Outro dia me disseram que elas vão cicatrizar, mas eu sei que nunca deixarão de existir.
Me sinto envergonhada. Frustrada. Fracassada.
E não há nada que eu possa fazer.
Ele nunca vai me enxergar.

[Marchando]

A gente tenta esquecer. O tom da voz, o perfume, as manias, as brincadeiras e até o carro você tinha. Será que comprou outro?
Aliás, sabe aquela música que eu adorava cantar com você? Eu também tento esquecer.
Aliás, e finjo que não gosto mais daquela comida que você fazia pra mim.
Aliás, também esqueci como eu me sentia quando a primeira coisa que via era você ao meu lado.
E do café da manha que a gente adorava tomar na padaria.
E esqueci como você usa muito cotonete, e como era prático em tudo que se propunha a fazer.
Até que, sem mais nem menos, eu vi seu carro na rua. Era o mesmo.
Não, não me esqueci dele.
E fiquei triste.
Triste porque tudo me pareceu igual. Fiquei triste porque não sei por onde você anda.
Nessa hora, inclusive, percebi que não esqueci o número do seu telefone, que mesmo tendo apagado da minha agenda, ainda sei de cor e salteado, de trás para a frente.
Fiquei triste porque lembrei que aquela música que eu adorava cantar com você já não toca mais no rádio e que talvez agora você não tenha mais nenhuma forma de se lembrar de mim. Triste porque sinto saudade da sua voz e das suas manias. E porque não sei mais quanto tempo dura a sua caixa de cotonete.
Fiquei triste… fiquei triste porque nada mudou, exceto pelo fato de ter conhecido o seu desamor.
Respiro fundo. Algumas lágrimas caem e eu finjo que esqueci porque estou chorando. Engato a quarta marcha e continuo tentando achar um caminho para te esquecer.