[Labirinto]

E foi assim, como se o tempo tivesse voado, que eu estou aqui.
Olho pra trás e não consigo me imaginar naquele caminho sombrio e sem saída.
Não consigo entender como fui capaz de seguir você em uma direção imoral.
Me lembro como se fosse agora, o labirinto em que você me jogou – onde a única saída era me acorrentar, com tamanha brutalidade, a tudo aquilo que me machucava.
Sinto como se fosse agora aquela pontada aguda no peito me dizendo que era melhor me perder do que seguir por ali.
Suspirei e caminhei.
Parei e olhei para trás.
Dei alguns passos em sua direção e, com lágrimas nos olhos, olhei pra você sem dizer uma palavra sequer.
Esse meu silêncio disse tudo.
Meu silêncio não iria mais enfrentar seus fantasmas.
E o que você fez das minhas mudas palavras, foi dar voz à insanidade.

[Além]

NOTA:
Este é um conto sobre o amor, daqueles que ultrapassam os limites do corpo.

Numa cidade pequena, não era inevitável que se encontrassem.
Poderia ser em qualquer esquina, a qualquer hora. E deve ter sido assim.

Ela era mais velha. Ele era um homem dedicado aos seus afazeres.
Ela ensinava. E ele sempre obedeceu ao relógio.
Ela também cantava. Ele dava pinta de galã.

Ele era quieto. Ela adorava uma prosa.
Discreto. Espalhafatosa.
Contrapontos que funcionariam perfeitamente por mais de 60 anos.

Se ela tinha medo, ele sempre estava ali segurando a sua mão.
Se ele imaginasse que ela fosse gostar, já teria feito.
Se ele ia, ela esperava ele voltar.
Se ele guardava seus sentimentos debaixo da casca grossa, ela não poupava uma vírgula.
Um fluxo tão perfeito que ninguém seria capaz de descrever.

E assim se passaram longos e longos anos, onde os dois seguiam vivendo como um.

Então, a vida, que assistia a tudo isso, resolveu colocar essa linda história à prova.
A velhice havia chegado.

Ele sempre foi o mais frágil. E ela se mantinha incansável.
Ela tinha sede de vida, ele nunca se manifestou sobre isso.

Ambos aguardavam lado a lado os planos que ela, a vida, havia feito para eles.
Afinal, essas décadas não duraria para sempre.
E não durou.

Subitamente, ela tropeçou em um obstáculo, desses que cedo ou tarde podemos encontrar.
Depois de encarar sua batalha, analisou que não havia mais nada por fazer,  a casa estava em ordem, e preferiu sair cena.

Desacreditado, ele guardou para si todas as suas lágrimas e quaisquer palavras.
Mas a partir daí, descobriu que não saberia viver pela metade. Que não poderia voltar sozinho pra casa ou segurar suas próprias mãos – agora que sentia medo.
Falar já não fazia sentido. Estar cercado de pessoas nunca o tirariam de uma solidão que só ele poderia explicar.

E ele nem tentou.
Decidiu que nada mais importaria.
Decidiu encontrar a sua única razão de ser.
Existir sem ela não valeria de nada.
E assim foi…
Além.

Nada, não.

Entre tantas coisas para fazer, aquela vontade de não fazer nada.
NADA.
que poderia ser definido como um momento de se encontrar intimamente.
organizar a bagunça das gavetas que existem dentro da gente.
ou aquelas gavetas cheia de roupas, mesmo.
NADA.
olhar meus papéis em branco e encher cada espacinho com palavras que estão guardadas aqui dentro.
passar mais tempo ao lado daqueles que eu tanto amo.
ir de encontro com aquilo que me completa.
Fazer nada.
Pra fazer novos planos. Pra tentar realizar meus sonhos e, por que não, descobrir novos deles.
Dormir sem hora pra acordar. Sem pensar na roupa suja/roupa na máquina/para estender/para guardar.
Esquecer a geladeira vazia.
O trânsito.
NADA.
Com ele.
Aqui, lá, pegando o próximo voo ou só perdendo alguns minutos para dizer coisas boas e lindas.
Entre tantas coisas pra fazer, aquela vontade de não fazer nada.

 

 

[Aquele mergulho que não demos]

Foi como assistir ao nascer do sol. Onde a escuridão ganhava suas primeiras cores.

Logo imaginei nós dois acordando com os primeiros raios, com a cara amassada, dizendo um “bom dia” tão doce quanto as frutas que teria sobre a mesa do café da manhã.
Correríamos pro mar, pra aliviar o calor e o suor dos nossos corpos.
Deitaríamos na areia só pra escutar o mar, e dormiríamos ali mesmo. Você tostando a testa e eu as costas.
A gente aproveitaria o dia pra descobrir mais sobre o outro, pra dar uma volta de mão dada, pra dar risada de absolutamente nada. Só pra esperar o sol se pôr e a noite cair – pra começar tudo e novo.

Imaginei tanto que comprei biquínis novos, tentei descobrir o que você gostaria de comer, olhei a previsão do tempo. Dizia que faria sol. Deve ter feito.

Com as malas prontas e com um aperto no peito, sinto falta daquele mergulho que não demos.

[FANTASMA]

Por muito tempo, você me assombrou.
Dava medo sair na rua e olhar para cada esquina.
Por onde andava, em cada canto da cidade, lá estava você – me assombrando como um fantasma.
Era como se olhar para os lados fosse uma busca por angústia.
Era como se em cada muro eu encontrasse uma cicatriz.
E doeu.
Todas elas doeram.

Mas olha como as coisas são.
Com o tempo lembrei que sim, que eu era livre.
Que eu poderia andar pelos caminhos que quisesse, seguir os rumos que me conviessem.

Descobri que não sou eu que preciso me esconder por detrás de nenhuma parede, muro ou rabiscos.
Que minhas sentenças são concretas, são reais.
Que vírgulas dão continuidade até chegar no ponto final.

Hoje eu tenho certeza que você não me assombra mais.
Afinal, fantasmas não existem.

E ponto final.

Mini Conto (26)

Se quiser se juntar a mim nessa viagem ou em alguma parte do caminho, por favor, me avise.
Podemos viver juntos em nossa Paris ou, por que não, numa ilha paradisíaca, quem sabe.
Imaginar seus olhos se abrindo pelas manhãs e se fechando por todas as noites me faria bem.
Desculpe o romantismo obscuro repentino, me escapou por entre os lábios – como Bukowski quando via uma garrafa e bebia tudo em um só gole.

É isso, expressar o que a gente sente e pensa não é obsceno. Obsceno mesmo é o que a gente esconde dentro da gente.

E aí, você vem?

Mini Conto [25]

Foi só deitar pra sentir meu coração.
Ele palpitou alto, parecia acelerado.
Não entendi o porquê.
Respirei fundo e tentei acalmá-lo.
Não adiantou.
Pedi pra razão avisá-lo que não era ele quem estava no comando.
Mas, teimoso que é, insistiu em pulsar ainda mais forte.
Ai, eu reclamei.
E então, sem saber o que fazer, decidi escutá-lo.
Deixei que reclamasse, que falasse.
No fim, depois de todo seu desabafo, entendi que aquelas batidas aceleradas, intensas e descompassadas não pertenciam a nós.
Eram apenas reflexos dele. Reflexos que ecoam ali, dentro da gente.