Mini Conto [24]

A única coisa difícil em mandá-la embora era ter que dizer os porquês.
Mas eu optei por esconder as verdades.
Sem saber qual seria sua reação, esperei com que juntasse a meia dúzia de coisas que ainda estavam por ali.
A vi caminhar de um lado para o outro com uma dor que só os olhos conseguem entender.
Mas estava me sentindo aliviado.
Quando terminou, tudo cabia dentro de uma pequena sacola.
Eram apenas alguns shampoos e um livro que ela tinha deixado ali.
Observei seus movimentos e as lágrimas que rolavam quase que automaticamente em seu rosto.
Vi que ela juntou forças para me dizer alguma coisa.
Antes de ir, ela me olhou e disse que o que mais doía não era saber que aquela cama seria ocupada por outra pessoa.
mas que teria que refazer todos os seus planos.
Não respondi.
Ela seguiu e não olhou para trás.
Hoje caminho sem ela, tenho a cama ocupada por outra e, além destes fatos, sigo sem plano algum.
Já não sei onde vou chegar.

 

[Unidade]

Certo dia, eles se aproximaram.
Ele, gentilmente, pediu licença para entrar. Ela permitiu.
Indelicadamente, ele resolveu que iria mais fundo.
Passou a entrar tanto que se tornaram uma coisa só. Uma única unidade.
Se ele se mexia, ela sentia. Se ele sorria, ela sorria de volta.

Acontece que ele entrou tanto que ela acabou perdendo seu próprio controle.
Já não sabia mais se as emoções a pertenciam ou se ele as conduzia.
Misturaram-se tão intensamente que ela já não podia encontrá-lo.

Até que um dia ele começou a machucar.
Doía tanto que ela decidiu que tinha que tirá-lo dali.
Só que era impossível saber onde ele estava.

Ela não o queria mais dentro dela.
Ela não queria que ele fosse parte dela.
Muito menos que refletisse seus sentimentos.

E, em um lapso de realidade, decidiu que teria que arrancá-lo dali.
Acontece que ela também entendeu que para tirar ele de dentro, precisaria acabar consigo mesma.
E não hesitou.

Num golpe de coragem, estilhaçou tudo que encontrou dentro de si.
Como se tivesse deixado uma vida pra trás.

E foi assim, somente assim, que pôde encontrar uma nova maneira de renascer.
Deixou, finalmente, entrar o ar em inspiradas só suas.

[Detalhe]

Depois de muito tempo, decidi que era hora de termos uma conversa, talvez a última. E essa questão era apenas um detalhe. Detalhe também seria a roupa que eu colocaria, onde a gente iria e como a conversa começaria.

O que não era detalhe era o que eu queria te dizer.
O que eu te disse, na verdade.
Era a hora de vomitar as palavras que eu tinha guardado na esperança que digerissem por conta própria.
Mas eu percebi que posso sofrer de indigestão.

Eu não queria apenas te contar que não te esqueci, não queria apenas que você soubesse que ainda penso em você dia sim, dia sim. Não queria somente dizer que tem um espaço vazio aqui dentro. Eu queria entender algumas coisas, queria um pouco mais de verdade e menos manobras emocionais.

Que nós dois temos pontos de vistas diferentes, isso não é novidade pra ninguém. E não digo isso por preferir molho branco e você de tomate. Digo porque, talvez, eu prefira sentenças concretas e não ler as entre linhas.
E eu fui clara quando te perguntei a respeito dela.

Ela, aquela pedra no meu sapato, aquela que custou algumas horas de conversas junguianas, aquela que nunca enganou meu sexto sentido. Aquela que se colocava no meio de nós como um furacão desesperado por atenção e que, em suas palavras, não era motivos para ser pauta de uma discussão.

Acontece que você poderia ter me dito qualquer coisa. Que sim, que não, a verdade ou mais uma mentira.
Mas você escolheu a tal das entre linhas. Você me disse a única coisa que não deveria.
Você me disse que era apenas um detalhe.

Não sei se você sabe, mas detalhes são miudezas, pormenores e não ocupam lugares importantes. Não importa o idioma ou quaisquer diferenças comportamentais. Detalhe significa (sempre) aquilo que não damos muita atenção, que não muda o rumo e que, no máximo, coloca uma vírgula ou outra na história.

Sim, você teve a chance de usar qualquer outro substantivo para chegar ao ponto final ideal. Mas não.
Você preferiu o detalhe.
Categorizou o protagonista como figurante.

Por fim, entre suas analogias e anedotas, gostaria de dizer que você não imagina o tamanho do estrago que seu detalhe foi capaz de fazer aqui dentro.  Mas talvez isso sim seja apenas um detalhe.
Agora, enquanto você se enche dessas superficialidades, eu busco me completar de consistência.
Acabo aliviada por não ser apenas uma vírgula.

[Eu, ele e você]

Éramos 3, eu, você e o amor.
Na verdade o amor ficava no meio.
Era ele quem dava as mãos pra nós dois, conectava e ritmava as batidas e a intensidade da gente.
O amor era disposto, cheio de vida, cheio de planos. Ele dava gás para tudo que a gente queria fazer.
Ah, o amor. O amor não se importava em dormir tarde e acordar cedo. Ele não se importava em não dormir.
Ele gostava de ligações diárias, de mensagens surpresas e de frases clichês.
O amor pegava fogo, apaziguava, motivava. Me lembro do amor mudar o mundo – ou pelo menos aquele que eu enxergava.
Com o amor entre a gente fizeram-se florestas e rios. Floresceram sentimentos e emoções maravilhosas.
Tudo feito a 6 mãos, por nós 3. Éramos um time completo, sem colocar nem tirar.
Mas um dia, sempre tem um dia, você foi para um lado e eu para o outro.
Esquecemos que o amor estava no meio e ele que ele não conseguiria se dividir e nem era elástico suficiente para seguir com os dois.
Tivemos que conversar. Eu e você e mais ninguém sobre o destino do amor.
Foram lágrimas, gritos, silêncio, palavras jogadas ao vento, alguma ofensas, alguns arrependimentos e tantas outras emoções.
Até que em certa hora, e eu me lembro desse momento com lágrimas nos olhos, você me disse que não queria ficar com ele, que não haveria porquê seguirmos com aquela conversa. Você disse que eu podia seguir com o amor, mas sem você.
Aquelas palavras acabaram com ele, o destruíram e o deixaram em pedaços incontáveis.
Sem o amor, aquelas árvores que floresceram também vão morrer e aqueles rios irão secar. É assim que funciona.
Aquelas palavras mudaram o curso da história. Da história que era pra ser nossa, minha, sua e do amor.
E agora sigo só, eu e o amor. Quem sabe não o deixo pelo caminho e começo uma nova história.
Quem sabe.

Mini Conto [23]

Os dois eram improváveis, mas aconteceu.
Não foi porque o caminho de um cruzou com o do outro, mas porque houve uma explosão quando se encontraram.
Uma explosão de sentimentos que poderiam ser eternos ao lado do outro.

Mas, a explosão virou faísca, o fogo cessou.
Um foi obrigado e ficar longe do outro, levando consigo uma carga de pólvora.
A dele queimou com outros encontros. A dela não explodia por nada.
Quando a dele virou fumaça, a dela ainda estava nas mãos.

E assim, ela decidiu avisá-lo que sem ele a sua pólvora não explodira mais.
Ele hesitou.
E então, ela decidiu buscar por outras combustões.
Mas no fundo, torceu para que o improvável acontecesse.
Torceu para que seus caminhos se chocassem novamente.

NO TITLE

Numa visão pessimista, a gente pode ficar onde está.
Na otimista, a única escolha é seguir em frente.
Vendo pelo lado ruim, tudo pode ter sido uma perda de tempo.
Já se olhar pelo bom, aquilo serviu como aprendizado e amadurecimento.

Como se tivesse uma linha separando dois lados.
Saudade. Vontade.
Passado. Futuro.
Lembrança. Presença.
Pode ser igual. Pode ser muito melhor.
Vazio. Completo.
Eu. Você.
Sem nós.

Sempre tem aquele momento de quando tudo faz sentido.
De quando a gente percebe que trocou os pés pelas mãos e que não existe uma cápsula do tempo para voltar e fazer diferente.
Nada muda o que foi feito, dito, visto e sentido.
Olhar pra trás é deixar o presente passar até se tornar um passado nulo.
Vazio de tudo, inclusive de si próprio.
Fazer isso é seguir cometendo os mesmo erros.

Acontece que as vezes o maior erro é perder aquela parte que te completa.
Aquela que pulsa, dá o ritmo, que toca dentro feito música.
Perder uma parte vital é como ter que renascer, aprender a respirar, aprender a crescer.

Mas ai entra a visão otimista.
Você não pode fazer nada, a não ser seguir em frente.
O que passou não volta mais. O que tá feito, tá feito.
O que eu posso fazer é fazer diferente.
E torcer para que algumas coisas voltem a cruzar esse novo caminho.

 

Despertar

Saio hoje como quem sai de um sonho perdido em um momento de lucidez, sem dizer tchau, nem até logo. Saio melhor do que quando entrei.
É isso. Às vezes, é preciso ter o coração petrificado para não perder o brilho nos olhos e poder acredita que sim, vale a pena lutar, sim, nem tudo é mentira e, sim, há algo a mais.
Por isso, me resta caminhar, seguir em frente sem me virar para trás ou tentar recolher os restos que ficaram.
Não quero migalhas. Elas não sustentam, não servem de nada. São apenas um lapso de piedade, que também não servem de nada. Não mudam o rumo, não chegam ao destino.
Não quero ser apenas sombra. Não quer ser apenas sal.