Pra você, vó

Hoje faz 5 anos…
Eu sei que parece estranho “lembrar” de um dia tão difícil, mas é inevitável.
Eu sei que você pediu pra gente não chorar, eu sei que você queria descansar.

Mas não teve nenhum dia sequer que não pensei em você. N-e-n-h-u-m.
Nem sempre com pesar, nem sempre sofrendo, nem sempre doendo.
Mas sempre pensando na falta que você faz, no que você me ensinou e em tudo que eu queria te contar.
E eu contei.

Contei em voz alta, enquanto preparava algo para comer.
Contei quando me senti perdida.
Quando não sabia pra onde ir.
Contei o que tava sentindo, perguntei quando não sabia o que fazer, ou querendo saber se fiz certo.
Contei sobre o incenso que acendi pra você e sobre como é difícil perder uma referência.

Será que te decepcionei ou te deixei orgulhosa?

Outro dia, mexendo no meu computador, achei uma pasta antiga e tinham vários vídeos que eu fiz de você.
O tempo é engraçado, né? Parece que foi ontem.
E não me importa se faz 1 ou 10 anos. Era presente.
Presente no sentido literal – de presença, de ser contemplada.

Ali estavam seu jeitinho, sua risada, sua roupa.
Seu cabelo como deveria estar – e as unhas vermelhas, claro.

Sorri quando vi essas imagens, mas não quis assistir até o final.
Não queria que acabasse, sei lá.
Não queria ter que te contar de novo sobre a falta que você me faz.
Afinal, você queria descansar, né?

E eu prometo te deixar quietinha por aí, porque enquanto você descansa, seu brilho segue vivo aqui dentro de mim.

Obrigada por deixar carimbado em mim o significado de amor e alegria.
Ah, e sinto lhe informar, mas você não foi embora.
Já faz 5 anos que você passou a morar no meu coração e nos meus melhores pensamentos.

Te amo além do (nosso) tempo. Te amo além da matéria.
Te amo por ter sido tudo pra mim.

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[Encontrar-se]

ESTAR, entre tantas definições, é encontrar-se em um lugar.
Mas existe aquilo que chamamos de presença-ausente, que é não se encontrar no lugar onde se está fisicamente.
Será que você me entende?
É quando o corpo se faz presente, mas o resto está em qualquer outro lugar que não aqui.

E sempre fomos assim. Estávamos, mas nunca nos encontrávamos.
Fisicamente éramos próximos, a matéria se esbarrava. Mas, e o resto?
No máximo estávamos no radar ou num olhar, mas nunca energeticamente envoltos. Nunca com palavras ou gestos.

Será que você me entende?
Para estar não basta sentir o perfume um do outro ou dividir a mesa do jantar.
Era preciso mais. Estar de corpo, alma, pensamento. Com sentimentos e sensações que são invisíveis aos olhos, que as palavras mal explicam e que emanam a tal da presença.
Você sempre esteve por aqui, com o radar e o olhar ligeiros, isso é verdade.
Mas, no fim das contas, eu entendi que isso não era nada além da sua ausência.

Sim, eu podia sentir seu perfume de longe, mas percebi que nunca estaríamos dividindo nada além de uma mesa de jantar.

Percebi também que, entre tantas definições, ESTAR também é permanecer onde se encontra, encontrar-se a uma certa distância.
E deve ser por aí onde você sempre esteve.

[A Última Dança]

A gente tinha nossas manias. Um jeito de falar, algumas palavras que inventamos e, entre tantas coisas, a nossa dança dominical.
Era assim que a gente se divertia em um momento só nosso.

E eu lembro do nosso último domingo. Já não tínhamos a mesma intimidade, ou a mesma rotina.
Aquela playlist rolava enquanto eu arrumava minhas coisas para ir.
Sentada na sua cama, te olhei e falei que “hoje podemos dançar, é domingo.”
Você parou o que estava fazendo, sorriu e, quando me deu a mão, a música mudou.
Era Angie.

Começamos a dançar. Você grudou em mim de um jeito diferente, como se quisesse entrar, como se quisesse deixar algo ali.
Eu ouvi a sua respiração em meu ouvido suspirar.
Dava pra sentir seu coração tremer. “When will those clouds all disappear”.

Você me abraçou mais forte, enquanto escutávamos Jagger dizer que “não podíamos dizer que nunca tentamos.”
E a gente tentou.

Ficamos em silêncio.
Essa ausência de som fazia gritar sentimentos e emoções que só a gente sabe.
A gente sentiu. Você sabe.
“I still love you, baby”… E a sua tentativa frustrada de sussurrar algo em meu ouvido – mas nem você, nem eu conseguimos emitir qualquer coisa que não fosse um abraço mais apertado, disfarçando qualquer sensação.

Estávamos enganando a quem? A música vinha como um script da gente. Sim, você odiava aquela tristeza nos meus olhos. Quantas vezes me pediu para enxugar aquelas lágrimas? Mas agora nossos sonhos tinham evaporado feito fumaça.

Não havia mais nada pra gente do que aquela dança. Aqueles minutos…
Aqueles minutos pareceram uma eternidade, que me fez enxergar você desnudo de barreiras, mudo de palavras.

Não precisava de mais nada.
Eu entendi tudo. Você entendeu tudo.
Mas, como eu disse, aquela música dizia por nós e, não à toa, terminaria com uma pergunta.

Aquela pergunta que você nunca soube me responder, que eu nunca quis aceitar.
Será que não é hora de dizermos adeus?
E sim, a gente não pode dizer que não tentou.

Uma pequena crônica

Às vezes, a gente percebe que nem sempre as coisas são como devem ser,
que há momentos em que precisamos repensar quem somos, para onde vamos e onde queremos chegar.

Muitos porquês não têm respostas e algumas coisas machucam sem razão.

Nossa vida é feita de fase. De muitas delas, na verdade.
Lições diárias, aprendizados constantes, mudanças repentinas.
O indivíduo muda. Aquele segundo já passou e as coisas já não são mais como eram.

Quando nos ausentamos dos problemas alheios, enxergamos nitidamente nossa essência.
O que amamos, odiamos, o que faz brilhar os olhos, nossos planos, projetos, emoções.
É tudo nosso. Só pra gente!

Mas, as vezes, o imã atrai coisas que nem sempre nos pertence.
E essas coisas nos jogam em um furacão de sentimentos que não são nossos.
Nos culpam pela vida que escolheram e por suas frustrações.
Como se ser feliz fosse errado. Como se tudo que conquistamos não fosse por méritos nossos.
Entregam de presente uma bandeja cheia de negativismo e falsa moral.

Cansa.
E por isso, as vezes, choramos.
Como uma defesa do corpo, a fim de tirar o ruim de dentro.
De limpar, acalmar.
Para amenizar.
Simplesmente.

É difícil olhar pra si próprio e ver que  somos capazes de agir assim.
Desperdiçar energia, perder minutos com coisas nulas, compartilhar sentimentos ruins.
Gerar emoções ingratas.

A vida que temos aqui não é a mesma que eles têm por lá.
E não é justo sermos aqui quem não seríamos lá.

Quando isso acontece, cabe pegar um papel em branco e escrever algumas palavras.
Criar novos planos, desejar mudanças, mudar o rumo.
Pegar uma contra-mão, anarquizar.
Colocar em prática toda aquela desobediência civil que alimentava nossos pensamentos juvenis.
Abraçar os melhores presentes que a vida nos traz – ainda que o maior deles seja de carne e osso.
Desfrutar.
Sem medos ou pudores.
Sem frustrações alheias.
Sem problemas que não nossos e sem criar problemas por falta deles.

[FOME]

Para que entendam melhor, ele sempre foi excêntrico. Um artista.
Frequenta lugares que o mainstream não imagina que existam por trás de cada porta.
Assiste a filmes que ninguém encontra legenda, porque são idiomas indecifráveis.

E era isso.
Era engraçado, porque ele já me conhecia muito bem – mas nunca imaginei que ficasse tão nervoso com nosso encontro.
Também não imaginei que eu pudesse escolher cada detalhe a dedo, do que vestiria ao que poderíamos debater.
Quando cheguei lá, seu tom de voz era outro. Mais impostado, como se fosse mais maduro.
E eu parecia uma moça adulta, cheia de pose e perfume.

Ok. Seguimos.
Lá estava ele, preparando uma receita especial.
Como demoraria para ficar pronta, me serviu exatamente tudo que eu gostaria.
Sim, ele me calculou do começo ao fim. Paladar, olfato, audição.
Ele até enxergava como a ponta do meu nariz se mexia enquanto falava.
Acho que isso deve ser culpa do seu signo.
Virgem.
Todos os detalhes se tornam visíveis de tão perfeitos e bem executados.

Bom… Pela primeira vez, escutei suas histórias mais secretas, seus medos mais profundos, suas questões mais inspiradoras.
E pela primeira vez, tinha alguém ali do outro lado da mesa querendo saber de mim.
Dos meus sonhos, das minhas angústias, inseguranças, do meu passado, do que quero para o futuro.
E sim, ele prestava atenção em cada palavra, me fazendo sentir especial.

No fim, quando o jantar ficou pronto, já não tínhamos mais fome.
Já não tínhamos também as armas da aparência, afinal, não havia nada para ser conquistado ali.
No fim, a fome desapareceu, porque concluímos nossos objetivos.
Eu me alimentara dos seus ouvidos atentos e ele se saciara de inspirações para sua próxima obra.

[Labirinto]

E foi assim, como se o tempo tivesse voado, que eu estou aqui.
Olho pra trás e não consigo me imaginar naquele caminho sombrio e sem saída.
Não consigo entender como fui capaz de seguir você em uma direção imoral.
Me lembro como se fosse agora, o labirinto em que você me jogou – onde a única saída era me acorrentar, com tamanha brutalidade, a tudo aquilo que me machucava.
Sinto como se fosse agora aquela pontada aguda no peito me dizendo que era melhor me perder do que seguir por ali.
Suspirei e caminhei.
Parei e olhei para trás.
Dei alguns passos em sua direção e, com lágrimas nos olhos, olhei pra você sem dizer uma palavra sequer.
Esse meu silêncio disse tudo.
Meu silêncio não iria mais enfrentar seus fantasmas.
E o que você fez das minhas mudas palavras, foi dar voz à insanidade.

[Além]

NOTA:
Este é um conto sobre o amor, daqueles que ultrapassam os limites do corpo.

Numa cidade pequena, não era inevitável que se encontrassem.
Poderia ser em qualquer esquina, a qualquer hora. E deve ter sido assim.

Ela era mais velha. Ele era um homem dedicado aos seus afazeres.
Ela ensinava. E ele sempre obedeceu ao relógio.
Ela também cantava. Ele dava pinta de galã.

Ele era quieto. Ela adorava uma prosa.
Discreto. Espalhafatosa.
Contrapontos que funcionariam perfeitamente por mais de 60 anos.

Se ela tinha medo, ele sempre estava ali segurando a sua mão.
Se ele imaginasse que ela fosse gostar, já teria feito.
Se ele ia, ela esperava ele voltar.
Se ele guardava seus sentimentos debaixo da casca grossa, ela não poupava uma vírgula.
Um fluxo tão perfeito que ninguém seria capaz de descrever.

E assim se passaram longos e longos anos, onde os dois seguiam vivendo como um.

Então, a vida, que assistia a tudo isso, resolveu colocar essa linda história à prova.
A velhice havia chegado.

Ele sempre foi o mais frágil. E ela se mantinha incansável.
Ela tinha sede de vida, ele nunca se manifestou sobre isso.

Ambos aguardavam lado a lado os planos que ela, a vida, havia feito para eles.
Afinal, essas décadas não duraria para sempre.
E não durou.

Subitamente, ela tropeçou em um obstáculo, desses que cedo ou tarde podemos encontrar.
Depois de encarar sua batalha, analisou que não havia mais nada por fazer,  a casa estava em ordem, e preferiu sair cena.

Desacreditado, ele guardou para si todas as suas lágrimas e quaisquer palavras.
Mas a partir daí, descobriu que não saberia viver pela metade. Que não poderia voltar sozinho pra casa ou segurar suas próprias mãos – agora que sentia medo.
Falar já não fazia sentido. Estar cercado de pessoas nunca o tirariam de uma solidão que só ele poderia explicar.

E ele nem tentou.
Decidiu que nada mais importaria.
Decidiu encontrar a sua única razão de ser.
Existir sem ela não valeria de nada.
E assim foi…
Além.