Mini Conto [22]

Parece que tudo aconteceu em um piscar de olhos.
Mas não começou agora.
Eles apenas se deram conta do turbilhão de emoções em que se encontram.
É como se um atraísse o outro para o mesmo lugar e, por mais que não quisessem estar neste ponto, são incapazes de fugir.
Como um ciclo vicioso, onde o vício tem nome, rosto e gosto.
Onde o desejo fala tão alto que passa por cima de qualquer melindre, sem perder a sua delicadeza.
E então, certos pudores abrem espaço para sentimentos que lutam para não serem reais.
Mas, quanto mais lutam para isso cessar, mais se aproximam, mais se viciam entre si e mais permitem florescer certos sentimentos.
Agora se encontram entre o medo e o desejo, mas ainda não decidiram com qual vão ficar.
Apenas descobrem que as coisas ganham cada vez força e que juntos vão chegar em algum lugar.

[Mini Conto] 21

Entre as surpresas do novo encontro, antigas vontades.
Emoções misturadas, como os corpos deveriam estar.
Mas não estiveram.
Eram apenas palavras desconexas e verdades omitidas.
Tão intensas que foram capazes de desordenar o caminho, o rumo e o futuro.
Tudo que foi capaz de levar deste breve embate, foi uma nova despedida.

SEREIA

“Para se defender da sereias, Ulisses tapou o ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente – e desde sempre – todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o que resista.”.


Trecho de “O Silêncio das Sereias” – Franz Kafka

Já dizia Kafka que só os tolos querem medir forças com as sereias.
Enquanto Ulisses pensava enganá-las, elas mostraram a real força do seu poder.

Para elas, não vale a pena seduzir os ingênuos e mostrar todos os seus encantos.
Para estes, elas dão apenas seu silêncio.

 

Dessintonia

Sim, estamos desconexos.
Tanto que nos pontos cardeais eu era sul e você norte.
Tão desconectados que o oriente e o ocidente nunca estiveram tão distantes.
Como pimenta e ausência de sabor.
Como saudade e indiferença.

Enquanto você sorri, eu derramo algumas lágrimas.
Enquanto seu corpo está quente, eu esfrio.
Assim, o seu tempo voa, o meu se arrasta.
Você continua. Eu permaneço.

Sim, eu sei, estamos em dessintonia.

[Nuvem]

Certas histórias começam de forma linda.
E essa é mais uma delas.

Ela era assim, feliz.
Sem colocar nem tirar. Tudo que sabia que é que tudo sempre estava bem.
Nunca soube o que era tristeza e era capaz de compreender quando tentavam explicar.

Mas dizem que todos precisam conhecer as emoções. Das melhores às piores, das brancas às negras.
E assim aconteceu.

Ela não sabe quando, mas de repente tudo escureceu.
Como se aquele imensidão de felicidade estivesse sendo coberta por uma grande e escura nuvem.
E sim, era uma nuvem.

Não demorou até começar a chover.
Ela, delicadamente, tentou mandar a nuvem embora, mas seus sopros pareciam sem efeito.
Inofensivos.

De gota em gota, choveu a cântaros.
Tempestade.
E ela descobriu impotência, pois não era capaz de parar.

Correu o mais rápido que conseguiu, mas a nuvem a seguia.
Perseguia.
Desesperava.

Ela chorou.
Chorou de medo, chorou por descobrir que aquela escuridão não parecia ter hora para acabar.
Chorou tanto que se afogou.
E foi bem ali, lá embaixo, que encontrou com ele.

ELE…

Reluzia, era feito de luz.
Isso trouxe esperanças de um novo recomeço, como se ele pudesse ajudá-la a acabar com a tempestade.

Sim, ele a olhou e sorriu. Parecia uma chamado.
E assim que ela pensou em sorrir de volta, ele começou a nadar.
Nadava rápido, mas ela foi atrás.
Tudo que conseguia ver dali debaixo eram os pés dele, que estavam sempre um pouco a frente de suas braçadas desesperadas.

Ele nadava mais rápido, enquanto ela corria atrás.
Nadou muito, nadou o mais rápido que pode.
Continuava se afogando em sua própria tempestade.
Continuava fugindo do desconhecido.
Continuava a insistir em alcança-lo.

Algumas vezes, ele olhou para trás…
mas nunca parou.
Ela não desistiu.
E ele… desapareceu.

Quando ela conseguiu retomar a respiração e os batimentos o procurou.
Desesperadamente.
Nem pés, nem luz, nem sorriso.

Não havia mais nada.

Assim que conseguiu sair daquele mar de angústia, a nuvem parecia cessar.
As gotas diminuíram e o sol dizia que queria renascer.
Ela esperou até que isso acontecesse.

Aos primeiros raios sentiu algo novo.
Compreendeu certas coisas.
Entendeu que alguns nuvens vão e vem
Descobriu que poderia ser uma pessoa melhor e como poderia.

Mas, enquanto o sol iluminava o seu rosto, deixou derramar as últimas gotas de sua tempestade.
Ela  percebeu que ele nunca mais cruzaria o seu caminho.
Que ele estaria sempre um passo a sua frente, sem nunca poder alcança-lo.

Bastam alguns segundos

Para o que era não ser mais

Para fazer lágrimas do riso

Da sanidade, loucura.

Bastam alguns segundos para tudo se transformar

Para tudo fazer sentido

ou para não entender mais nada.

Alguns segundos para se esquecer uma vida

Alguns segundos para ignorar o respeito

e a gratidão.

Bastam alguns segundos para que os outros milhares não tenham valido nada.

Mais alguns para transformar todas as verdades em mentiras.

Basta uma noite com outra pessoa para o amor acabar

Como se jamais tivesse existido.

Alguns segundos para que tudo que era pra ser

Não ser mais.

Alguns segundos para fazer o que quiser com a vida.

Segundos que trazem mudanças inesperadas.

Segundos que vão se tornar minutos,

Horas,

Dias,

Anos,

Segundos que poderiam mudar o fim da história.

Segundos que poderiam deixar a história viver pra sempre.