[Detalhe]

Depois de muito tempo, decidi que era hora de termos uma conversa, talvez a última. E essa questão era apenas um detalhe. Detalhe também seria a roupa que eu colocaria, onde a gente iria e como a conversa começaria.

O que não era detalhe era o que eu queria te dizer.
O que eu te disse, na verdade.
Era a hora de vomitar as palavras que eu tinha guardado na esperança que digerissem por conta própria.
Mas eu percebi que posso sofrer de indigestão.

Eu não queria apenas te contar que não te esqueci, não queria apenas que você soubesse que ainda penso em você dia sim, dia sim. Não queria somente dizer que tem um espaço vazio aqui dentro. Eu queria entender algumas coisas, queria um pouco mais de verdade e menos manobras emocionais.

Que nós dois temos pontos de vistas diferentes, isso não é novidade pra ninguém. E não digo isso por preferir molho branco e você de tomate. Digo porque, talvez, eu prefira sentenças concretas e não ler as entre linhas.
E eu fui clara quando te perguntei a respeito dela.

Ela, aquela pedra no meu sapato, aquela que custou algumas horas de conversas junguianas, aquela que nunca enganou meu sexto sentido. Aquela que se colocava no meio de nós como um furacão desesperado por atenção e que, em suas palavras, não era motivos para ser pauta de uma discussão.

Acontece que você poderia ter me dito qualquer coisa. Que sim, que não, a verdade ou mais uma mentira.
Mas você escolheu a tal das entre linhas. Você me disse a única coisa que não deveria.
Você me disse que era apenas um detalhe.

Não sei se você sabe, mas detalhes são miudezas, pormenores e não ocupam lugares importantes. Não importa o idioma ou quaisquer diferenças comportamentais. Detalhe significa (sempre) aquilo que não damos muita atenção, que não muda o rumo e que, no máximo, coloca uma vírgula ou outra na história.

Sim, você teve a chance de usar qualquer outro substantivo para chegar ao ponto final ideal. Mas não.
Você preferiu o detalhe.
Categorizou o protagonista como figurante.

Por fim, entre suas analogias e anedotas, gostaria de dizer que você não imagina o tamanho do estrago que seu detalhe foi capaz de fazer aqui dentro.  Mas talvez isso sim seja apenas um detalhe.
Agora, enquanto você se enche dessas superficialidades, eu busco me completar de consistência.
Acabo aliviada por não ser apenas uma vírgula.

[Eu, ele e você]

Éramos 3, eu, você e o amor.
Na verdade o amor ficava no meio.
Era ele quem dava as mãos pra nós dois, conectava e ritmava as batidas e a intensidade da gente.
O amor era disposto, cheio de vida, cheio de planos. Ele dava gás para tudo que a gente queria fazer.
Ah, o amor. O amor não se importava em dormir tarde e acordar cedo. Ele não se importava em não dormir.
Ele gostava de ligações diárias, de mensagens surpresas e de frases clichês.
O amor pegava fogo, apaziguava, motivava. Me lembro do amor mudar o mundo – ou pelo menos aquele que eu enxergava.
Com o amor entre a gente fizeram-se florestas e rios. Floresceram sentimentos e emoções maravilhosas.
Tudo feito a 6 mãos, por nós 3. Éramos um time completo, sem colocar nem tirar.
Mas um dia, sempre tem um dia, você foi para um lado e eu para o outro.
Esquecemos que o amor estava no meio e ele que ele não conseguiria se dividir e nem era elástico suficiente para seguir com os dois.
Tivemos que conversar. Eu e você e mais ninguém sobre o destino do amor.
Foram lágrimas, gritos, silêncio, palavras jogadas ao vento, alguma ofensas, alguns arrependimentos e tantas outras emoções.
Até que em certa hora, e eu me lembro desse momento com lágrimas nos olhos, você me disse que não queria ficar com ele, que não haveria porquê seguirmos com aquela conversa. Você disse que eu podia seguir com o amor, mas sem você.
Aquelas palavras acabaram com ele, o destruíram e o deixaram em pedaços incontáveis.
Sem o amor, aquelas árvores que floresceram também vão morrer e aqueles rios irão secar. É assim que funciona.
Aquelas palavras mudaram o curso da história. Da história que era pra ser nossa, minha, sua e do amor.
E agora sigo só, eu e o amor. Quem sabe não o deixo pelo caminho e começo uma nova história.
Quem sabe.

Mini Conto [23]

Os dois eram improváveis, mas aconteceu.
Não foi porque o caminho de um cruzou com o do outro, mas porque houve uma explosão quando se encontraram.
Uma explosão de sentimentos que poderiam ser eternos ao lado do outro.

Mas, a explosão virou faísca, o fogo cessou.
Um foi obrigado e ficar longe do outro, levando consigo uma carga de pólvora.
A dele queimou com outros encontros. A dela não explodia por nada.
Quando a dele virou fumaça, a dela ainda estava nas mãos.

E assim, ela decidiu avisá-lo que sem ele a sua pólvora não explodira mais.
Ele hesitou.
E então, ela decidiu buscar por outras combustões.
Mas no fundo, torceu para que o improvável acontecesse.
Torceu para que seus caminhos se chocassem novamente.

NO TITLE

Numa visão pessimista, a gente pode ficar onde está.
Na otimista, a única escolha é seguir em frente.
Vendo pelo lado ruim, tudo pode ter sido uma perda de tempo.
Já se olhar pelo bom, aquilo serviu como aprendizado e amadurecimento.

Como se tivesse uma linha separando dois lados.
Saudade. Vontade.
Passado. Futuro.
Lembrança. Presença.
Pode ser igual. Pode ser muito melhor.
Vazio. Completo.
Eu. Você.
Sem nós.

Sempre tem aquele momento de quando tudo faz sentido.
De quando a gente percebe que trocou os pés pelas mãos e que não existe uma cápsula do tempo para voltar e fazer diferente.
Nada muda o que foi feito, dito, visto e sentido.
Olhar pra trás é deixar o presente passar até se tornar um passado nulo.
Vazio de tudo, inclusive de si próprio.
Fazer isso é seguir cometendo os mesmo erros.

Acontece que as vezes o maior erro é perder aquela parte que te completa.
Aquela que pulsa, dá o ritmo, que toca dentro feito música.
Perder uma parte vital é como ter que renascer, aprender a respirar, aprender a crescer.

Mas ai entra a visão otimista.
Você não pode fazer nada, a não ser seguir em frente.
O que passou não volta mais. O que tá feito, tá feito.
O que eu posso fazer é fazer diferente.
E torcer para que algumas coisas voltem a cruzar esse novo caminho.

 

Despertar

Saio hoje como quem sai de um sonho perdido em um momento de lucidez, sem dizer tchau, nem até logo. Saio melhor do que quando entrei.
É isso. Às vezes, é preciso ter o coração petrificado para não perder o brilho nos olhos e poder acredita que sim, vale a pena lutar, sim, nem tudo é mentira e, sim, há algo a mais.
Por isso, me resta caminhar, seguir em frente sem me virar para trás ou tentar recolher os restos que ficaram.
Não quero migalhas. Elas não sustentam, não servem de nada. São apenas um lapso de piedade, que também não servem de nada. Não mudam o rumo, não chegam ao destino.
Não quero ser apenas sombra. Não quer ser apenas sal.

Destino

Tem gente que acredita no destino, nos acasos da vida, no “tinha que ser assim”.
Eu não sei…
Pra mim, acreditar em destino é uma forma simplista de se livrar de nossas próprias escolhas e responsabilidades.

Acredito que a gente seja o único responsável por escrever nossa história, por mudar o rumo e os caminhos.
A gente cai nas próprias armadilhas, a gente se engana com os nossos próprios sentimentos.
Somos, inclusive, capazes de nos cegar do que não queremos enxergar.
E pior (ou melhor) de ver as coisas como queremos.

Não, não foi o destino que me trouxe até aqui. Foi o caminho que eu escolhi seguir.
Não foi o destino que me mandou por este caminho. Foram as escolhas que fiz nesse meio tempo.
Não foi o destino o responsável pelos meus erros ou acertos. Foram as formas que eu enxerguei de lidar com todas as situações.

É aquela coisa… Atitudes e consequências e não o “tinha que ser assim”.
Apenas foi, apenas é e vai ser do jeito que a gente decidir conduzir.
Nem sempre é bom, mas ai a gente aprende. E se a gente aprendeu alguma coisa é porque valeu a pena.

Sei lá, isso é só um desabafo.
Pode ser que amanhã esse mesmo destino cruze minha vida e, quem sabe, eu pegue uma carona com ele pro lugar aonde ele resolver me levar.
E se eu fizer isso, vou continuar a ser a única responsável pelas novas experiências e descobertas até chegar lá.

Mini Conto [22]

Parece que tudo aconteceu em um piscar de olhos.
Mas não começou agora.
Eles apenas se deram conta do turbilhão de emoções em que se encontram.
É como se um atraísse o outro para o mesmo lugar e, por mais que não quisessem estar neste ponto, são incapazes de fugir.
Como um ciclo vicioso, onde o vício tem nome, rosto e gosto.
Onde o desejo fala tão alto que passa por cima de qualquer melindre, sem perder a sua delicadeza.
E então, certos pudores abrem espaço para sentimentos que lutam para não serem reais.
Mas, quanto mais lutam para isso cessar, mais se aproximam, mais se viciam entre si e mais permitem florescer certos sentimentos.
Agora se encontram entre o medo e o desejo, mas ainda não decidiram com qual vão ficar.
Apenas descobrem que as coisas ganham cada vez força e que juntos vão chegar em algum lugar.