Sobre o amor

Eu torço pra que um dia você entenda que o amor é algo mágico.
Que é aquela energia que corre dentro da gente e faz o mundo parecer mais bonito.
Que enche a gente de luz, que acalma a alma. Que faz minimizar o sono, a fome, o trânsito.
O lance de fazer brilhar os olhos, mudar os planos e andar sem rumo, sabe?
É… talvez você não saiba.
Então, vou te contar.
O amor transforma, deixa a gente mais completo, faz a gente querer ser cada vez melhor.
Explorar novas rotas, sem se preocupar com o destino.
Faz a gente querer conhecer novos sabores, explorar o próprio mapa.
E sim. Eu torço pra que um dia você seja capaz de abrir uma fresta nesse peito e deixar passar um vestígio dele.
Quando isso acontecer, você vai ver que o amor não te faz perder.
Ele soma.
Soma um com o outro, soma seus sonhos com os de alguém. Soma com viagens mais longas, com noites abraçadas. Soma dois mundos, cria um novo universo.
Torço pra que um dia você entenda que o amor não te tira de você. Ele só te coloca cada vez mais perto, mais próximo de você mesmo. Te ajuda a se auto-descobrir <<em todas as esferas>>.
Torço pra que um dia você não tenha medo de sentir que a sua vida não pertence somente a você.
E um dia, quem sabe, você descubra que o amor seja, talvez, a única forma de transformar o “eu” em “nós”.
A nossa passagem aqui não é uma viagem do próprio ego, ela não precisa ser solitária e recheada de vazios.
Ela pode ser completa.
E eu torço pra que um dia você seja capaz de sentir tudo isso.
<<Quem sabe um dia>>.

Scars

E é assim,
tem dano que não tem cura,
que vira cicatriz,
que fica pra sempre ali, lembrando o tamanho da ferida.

Tem lesão que vai com a gente pela vida toda,
que muda o que a gente achava que era.
Quem a gente achava que fosse.

Tem machucado que é do tamanho das nossas expectativas.
Tem ferida que arde do tamanho dos nossos sentimentos.

Todas essas marcas são histórias escritas.
Que, mesmo riscadas, rabiscadas ou páginas viradas, não podem ser apagadas.
São como marca de borracha por cima do lápis.
Ameniza, mas não apaga.

[Hora]

São exatamente 00h39. Segunda-feira.
Confesso.
Tem horas que eu me deparo com palavras e imagens que me deixam sem ar, que fazem verter algumas lágrimas em meus olhos.
É dele mesmo que eu tô falando.
Dele e do amor.
De como algumas coisas são capazes de se reinventar.
Como o nunca se torna sempre. E que pode ser para sempre.
É dele mesmo.
Do amor cravado no peito, sentido e imensurável.
Eu tô falando dele.
Que machuca, atropela. Que passa por cima como um furacão.
Ele, que era nós. Mas que sempre fui eu.
E termino falando dele. Que segue intrínseco.
Que me faz ler e ver e sentir e verter algumas lágrimas em meus olhos.

Ele não tem ideia do quanto machuca.
Já são 2h30 e mais de 400 dias.
Ainda não dormi.

Mini Conto [24]

A única coisa difícil em mandá-la embora era ter que dizer os porquês.
Mas eu optei por esconder as verdades.
Sem saber qual seria sua reação, esperei com que juntasse a meia dúzia de coisas que ainda estavam por ali.
A vi caminhar de um lado para o outro com uma dor que só os olhos conseguem entender.
Mas estava me sentindo aliviado.
Quando terminou, tudo cabia dentro de uma pequena sacola.
Eram apenas alguns shampoos e um livro que ela tinha deixado ali.
Observei seus movimentos e as lágrimas que rolavam quase que automaticamente em seu rosto.
Vi que ela juntou forças para me dizer alguma coisa.
Antes de ir, ela me olhou e disse que o que mais doía não era saber que aquela cama seria ocupada por outra pessoa.
mas que teria que refazer todos os seus planos.
Não respondi.
Ela seguiu e não olhou para trás.
Hoje caminho sem ela, tenho a cama ocupada por outra e, além destes fatos, sigo sem plano algum.
Já não sei onde vou chegar.

 

[Unidade]

Certo dia, eles se aproximaram.
Ele, gentilmente, pediu licença para entrar. Ela permitiu.
Indelicadamente, ele resolveu que iria mais fundo.
Passou a entrar tanto que se tornaram uma coisa só. Uma única unidade.
Se ele se mexia, ela sentia. Se ele sorria, ela sorria de volta.

Acontece que ele entrou tanto que ela acabou perdendo seu próprio controle.
Já não sabia mais se as emoções a pertenciam ou se ele as conduzia.
Misturaram-se tão intensamente que ela já não podia encontrá-lo.

Até que um dia ele começou a machucar.
Doía tanto que ela decidiu que tinha que tirá-lo dali.
Só que era impossível saber onde ele estava.

Ela não o queria mais dentro dela.
Ela não queria que ele fosse parte dela.
Muito menos que refletisse seus sentimentos.

E, em um lapso de realidade, decidiu que teria que arrancá-lo dali.
Acontece que ela também entendeu que para tirar ele de dentro, precisaria acabar consigo mesma.
E não hesitou.

Num golpe de coragem, estilhaçou tudo que encontrou dentro de si.
Como se tivesse deixado uma vida pra trás.

E foi assim, somente assim, que pôde encontrar uma nova maneira de renascer.
Deixou, finalmente, entrar o ar em inspiradas só suas.

[Detalhe]

Depois de muito tempo, decidi que era hora de termos uma conversa, talvez a última. E essa questão era apenas um detalhe. Detalhe também seria a roupa que eu colocaria, onde a gente iria e como a conversa começaria.

O que não era detalhe era o que eu queria te dizer.
O que eu te disse, na verdade.
Era a hora de vomitar as palavras que eu tinha guardado na esperança que digerissem por conta própria.
Mas eu percebi que posso sofrer de indigestão.

Eu não queria apenas te contar que não te esqueci, não queria apenas que você soubesse que ainda penso em você dia sim, dia sim. Não queria somente dizer que tem um espaço vazio aqui dentro. Eu queria entender algumas coisas, queria um pouco mais de verdade e menos manobras emocionais.

Que nós dois temos pontos de vistas diferentes, isso não é novidade pra ninguém. E não digo isso por preferir molho branco e você de tomate. Digo porque, talvez, eu prefira sentenças concretas e não ler as entre linhas.
E eu fui clara quando te perguntei a respeito dela.

Ela, aquela pedra no meu sapato, aquela que custou algumas horas de conversas junguianas, aquela que nunca enganou meu sexto sentido. Aquela que se colocava no meio de nós como um furacão desesperado por atenção e que, em suas palavras, não era motivos para ser pauta de uma discussão.

Acontece que você poderia ter me dito qualquer coisa. Que sim, que não, a verdade ou mais uma mentira.
Mas você escolheu a tal das entre linhas. Você me disse a única coisa que não deveria.
Você me disse que era apenas um detalhe.

Não sei se você sabe, mas detalhes são miudezas, pormenores e não ocupam lugares importantes. Não importa o idioma ou quaisquer diferenças comportamentais. Detalhe significa (sempre) aquilo que não damos muita atenção, que não muda o rumo e que, no máximo, coloca uma vírgula ou outra na história.

Sim, você teve a chance de usar qualquer outro substantivo para chegar ao ponto final ideal. Mas não.
Você preferiu o detalhe.
Categorizou o protagonista como figurante.

Por fim, entre suas analogias e anedotas, gostaria de dizer que você não imagina o tamanho do estrago que seu detalhe foi capaz de fazer aqui dentro.  Mas talvez isso sim seja apenas um detalhe.
Agora, enquanto você se enche dessas superficialidades, eu busco me completar de consistência.
Acabo aliviada por não ser apenas uma vírgula.

[Eu, ele e você]

Éramos 3, eu, você e o amor.
Na verdade o amor ficava no meio.
Era ele quem dava as mãos pra nós dois, conectava e ritmava as batidas e a intensidade da gente.
O amor era disposto, cheio de vida, cheio de planos. Ele dava gás para tudo que a gente queria fazer.
Ah, o amor. O amor não se importava em dormir tarde e acordar cedo. Ele não se importava em não dormir.
Ele gostava de ligações diárias, de mensagens surpresas e de frases clichês.
O amor pegava fogo, apaziguava, motivava. Me lembro do amor mudar o mundo – ou pelo menos aquele que eu enxergava.
Com o amor entre a gente fizeram-se florestas e rios. Floresceram sentimentos e emoções maravilhosas.
Tudo feito a 6 mãos, por nós 3. Éramos um time completo, sem colocar nem tirar.
Mas um dia, sempre tem um dia, você foi para um lado e eu para o outro.
Esquecemos que o amor estava no meio e ele que ele não conseguiria se dividir e nem era elástico suficiente para seguir com os dois.
Tivemos que conversar. Eu e você e mais ninguém sobre o destino do amor.
Foram lágrimas, gritos, silêncio, palavras jogadas ao vento, alguma ofensas, alguns arrependimentos e tantas outras emoções.
Até que em certa hora, e eu me lembro desse momento com lágrimas nos olhos, você me disse que não queria ficar com ele, que não haveria porquê seguirmos com aquela conversa. Você disse que eu podia seguir com o amor, mas sem você.
Aquelas palavras acabaram com ele, o destruíram e o deixaram em pedaços incontáveis.
Sem o amor, aquelas árvores que floresceram também vão morrer e aqueles rios irão secar. É assim que funciona.
Aquelas palavras mudaram o curso da história. Da história que era pra ser nossa, minha, sua e do amor.
E agora sigo só, eu e o amor. Quem sabe não o deixo pelo caminho e começo uma nova história.
Quem sabe.