[SIMPLICIDADE]

Você já tentou colocar sentimentos em palavras?
Eu sempre tento e, por mais que eu busque quaisquer analogias ou rimas, muitas vezes faltam maneiras de dizer o que tá aqui dentro.

Explico.

Não faz muito tempo, tive um reencontro – daqueles que marcaram uma época e que ensinaram muito sobre a juventude.

Sem que percebesse, fui levada por aquela maré de calmaria.

E calmaria não significa surfar em mares sem ondas, mas sim mergulhar e esquecer o medo de se afogar, para ir cada vez mais fundo – e quem gosta de aventuras, sabe que o fundo do mar é um novo universo.

Olha aí, mais uma analogia. Mas será que deu pra entender?
Enfim… o meu mergulho emergiu e, voltando pra superfície, tudo ainda parecia calmo e inspirador.
Oxigênio puro. INSPIREI SEM HESITAR.

Mas também, veja você, quem não gosta de uma conversa olho no olho acompanhada por uma taça de vinho, alguns queijos, aquela playlist que parece sua, uma boa dose de diversão e um carinho nos mínimos detalhes.
É… Tudo parecia exato, como se que alguém tivesse feito pra ele um script de mim. Como se eu mesma tivesse montado aquelas cenas todas.

E foi assim, simples assim, que aquele reencontro, virou encontro, que virou rotina e que virou uma conexão exata.
E me dei conta disso quando, certa noite, ele me abraçou.

Senti um coração bater dentro de mim. Era tão forte que pensei que fosse o meu.
Mas, em seguida, senti o corpo dele inteiro pulsar na mesma batida.
O dele com o meu ou o meu com o dele? Não decifrei.

De repente, percebi que não sabia mais de onde vinham aquelas batidas.
Afinal, havia ali um ritmo perfeito. A gente pulsava junto, numa sincronicidade que nunca vi e, nesse exato momento, entendi o que era isso.

Havíamos convergido em uma unidade, aquilo ali era uma coisa só. Eu e ele, ele e eu.
E ouvi dizer que isso tem uma definição (tão simples quanto o nome desse texto).

[Amor]

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[ VOOU ]

Vou começar pelo momento em que eu decidi te esquecer.
Mas, quem esquece algo que não consegue parar de lembrar?

Foi aí que eu ouvi dizer que o “tempo é o melhor remédio”, mas logo discordei.
Tempo não é remédio, é apenas um conceito que inventaram para medir a vida.

O TEMPO É A VIDA. 

Ele passa, porque ela passa
E assim, vamos nos afastando cada vez mais do ponto em que estávamos,
< vamos deixando ele pra trás, criando esquecimentos para evitar sofrimento.
Criando novos caminhos para ignorar o que já foi >

E já que o tempo e a vida são uma coisa só, vejam vocês,
algumas coisas não vão passar conforme as horas < simplesmente porque a vida continua >

Para curar, a gente precisa seguir com os dois, juntos.
Sintonizados. Como não éramos.

E foi assim, dessintonizados, que eu fui.
Viajei o mundo, viajei pra dentro de mim.
Era assim que teria que seguir.

E seguimos.
Cada um pra um lado.
As vezes se esbarrando, as vezes dividindo.
< no tempo que nos coube – ou no que você quis que fosse >

A vida continuava
E lá estava a gente, escrevendo novas histórias.
Recomeçando com o novo tempo.

E é bem neste ponto que esse capítulo começa.

Eu tive esperar o remédio do tempo, o tal do antídoto para pulsar de novo.
Mas descobri que essas batidas vinham do coração.
E ele é teimoso, tem vida própria, um tempo só dele.

Mestre em ignorar comandos.
Simplesmente se aloja dentro da gente e faz o que bem entender.
E, por aqui, teve preguiça de mudar a pressão arterial.
< diferente da razão, obediente, manipulável, que aceita diretrizes >

Fez-se um motim.
Eles conflitaram.
E veja você, era uma batalha silenciosa, mas que ecoava por todos os poros.
< essa guerra tinha que terminar >

Foi aí que, dentro do meu próprio vale sagrado, a calmaria deu as caras e eu entendi:
O tempo podia passar, a vida podia seguir, mas algo não estava certo.
Eu havia esquecido de lembrar de te esquecer. Por anos e anos.
Tantos.

Foi bem ali que eu entendi que você não tinha ficado para trás.
< afinal, o tempo passou, eu segui, mas de que adiantaria tudo isso se te levei aqui dentro comigo? >
Guardado, cuidado, preservado por aquilo que eu pensava ter para te dar.

Agarrei isso com uma cegueira tão intensa que criei meu próprio antídoto anti-cura.
Morria do meu próprio veneno, com pequenas doses de desencanto, expectativa e platonismo barato.
< a ilusão do que não se tem >

Ali eu entendi que é possível parar no tempo, por mais que as horas corram, os anos passem e a vida siga.
Vai que você volta.
Vai que você está.
Vai que…
Mas nunca foi.
Nem você, nem eu, muito menos a gente.

Eu vi passos marcados no mesmo lugar, tão intrínsecos que poderiam nunca desaparecer.
< cicatrizes de uma batalha de um exército só >
Eu mesma os fiz. Eu mesma criei essa rota e persisti.
Sozinha
por algo intangível que não sinto, que não temos e nunca viríamos a criar.

Só que é hora de partir.
Sem rumo, sem destino, sem você aqui dentro.

E não existe nada mais libertador do que seguir sem amarras, sem cadarços…
Ando descalça, com os pés livres.
< Voou >

Pra você, vó

Hoje faz 5 anos…
Eu sei que parece estranho “lembrar” de um dia tão difícil, mas é inevitável.
Eu sei que você pediu pra gente não chorar, eu sei que você queria descansar.

Mas não teve nenhum dia sequer que não pensei em você. N-e-n-h-u-m.
Nem sempre com pesar, nem sempre sofrendo, nem sempre doendo.
Mas sempre pensando na falta que você faz, no que você me ensinou e em tudo que eu queria te contar.
E eu contei.

Contei em voz alta, enquanto preparava algo para comer.
Contei quando me senti perdida.
Quando não sabia pra onde ir.
Contei o que tava sentindo, perguntei quando não sabia o que fazer, ou querendo saber se fiz certo.
Contei sobre o incenso que acendi pra você e sobre como é difícil perder uma referência.

Será que te decepcionei ou te deixei orgulhosa?

Outro dia, mexendo no meu computador, achei uma pasta antiga e tinham vários vídeos que eu fiz de você.
O tempo é engraçado, né? Parece que foi ontem.
E não me importa se faz 1 ou 10 anos. Era presente.
Presente no sentido literal – de presença, de ser contemplada.

Ali estavam seu jeitinho, sua risada, sua roupa.
Seu cabelo como deveria estar – e as unhas vermelhas, claro.

Sorri quando vi essas imagens, mas não quis assistir até o final.
Não queria que acabasse, sei lá.
Não queria ter que te contar de novo sobre a falta que você me faz.
Afinal, você queria descansar, né?

E eu prometo te deixar quietinha por aí, porque enquanto você descansa, seu brilho segue vivo aqui dentro de mim.

Obrigada por deixar carimbado em mim o significado de amor e alegria.
Ah, e sinto lhe informar, mas você não foi embora.
Já faz 5 anos que você passou a morar no meu coração e nos meus melhores pensamentos.

Te amo além do (nosso) tempo. Te amo além da matéria.
Te amo por ter sido tudo pra mim.

[Encontrar-se]

ESTAR, entre tantas definições, é encontrar-se em um lugar.
Mas existe aquilo que chamamos de presença-ausente, que é não se encontrar no lugar onde se está fisicamente.
Será que você me entende?
É quando o corpo se faz presente, mas o resto está em qualquer outro lugar que não aqui.

E sempre fomos assim. Estávamos, mas nunca nos encontrávamos.
Fisicamente éramos próximos, a matéria se esbarrava. Mas, e o resto?
No máximo estávamos no radar ou num olhar, mas nunca energeticamente envoltos. Nunca com palavras ou gestos.

Será que você me entende?
Para estar não basta sentir o perfume um do outro ou dividir a mesa do jantar.
Era preciso mais. Estar de corpo, alma, pensamento. Com sentimentos e sensações que são invisíveis aos olhos, que as palavras mal explicam e que emanam a tal da presença.
Você sempre esteve por aqui, com o radar e o olhar ligeiros, isso é verdade.
Mas, no fim das contas, eu entendi que isso não era nada além da sua ausência.

Sim, eu podia sentir seu perfume de longe, mas percebi que nunca estaríamos dividindo nada além de uma mesa de jantar.

Percebi também que, entre tantas definições, ESTAR também é permanecer onde se encontra, encontrar-se a uma certa distância.
E deve ser por aí onde você sempre esteve.

[A Última Dança]

A gente tinha nossas manias. Um jeito de falar, algumas palavras que inventamos e, entre tantas coisas, a nossa dança dominical.
Era assim que a gente se divertia em um momento só nosso.

E eu lembro do nosso último domingo. Já não tínhamos a mesma intimidade, ou a mesma rotina.
Aquela playlist rolava enquanto eu arrumava minhas coisas para ir.
Sentada na sua cama, te olhei e falei que “hoje podemos dançar, é domingo.”
Você parou o que estava fazendo, sorriu e, quando me deu a mão, a música mudou.
Era Angie.

Começamos a dançar. Você grudou em mim de um jeito diferente, como se quisesse entrar, como se quisesse deixar algo ali.
Eu ouvi a sua respiração em meu ouvido suspirar.
Dava pra sentir seu coração tremer. “When will those clouds all disappear”.

Você me abraçou mais forte, enquanto escutávamos Jagger dizer que “não podíamos dizer que nunca tentamos.”
E a gente tentou.

Ficamos em silêncio.
Essa ausência de som fazia gritar sentimentos e emoções que só a gente sabe.
A gente sentiu. Você sabe.
“I still love you, baby”… E a sua tentativa frustrada de sussurrar algo em meu ouvido – mas nem você, nem eu conseguimos emitir qualquer coisa que não fosse um abraço mais apertado, disfarçando qualquer sensação.

Estávamos enganando a quem? A música vinha como um script da gente. Sim, você odiava aquela tristeza nos meus olhos. Quantas vezes me pediu para enxugar aquelas lágrimas? Mas agora nossos sonhos tinham evaporado feito fumaça.

Não havia mais nada pra gente do que aquela dança. Aqueles minutos…
Aqueles minutos pareceram uma eternidade, que me fez enxergar você desnudo de barreiras, mudo de palavras.

Não precisava de mais nada.
Eu entendi tudo. Você entendeu tudo.
Mas, como eu disse, aquela música dizia por nós e, não à toa, terminaria com uma pergunta.

Aquela pergunta que você nunca soube me responder, que eu nunca quis aceitar.
Será que não é hora de dizermos adeus?
E sim, a gente não pode dizer que não tentou.

Uma pequena crônica

Às vezes, a gente percebe que nem sempre as coisas são como devem ser,
que há momentos em que precisamos repensar quem somos, para onde vamos e onde queremos chegar.

Muitos porquês não têm respostas e algumas coisas machucam sem razão.

Nossa vida é feita de fase. De muitas delas, na verdade.
Lições diárias, aprendizados constantes, mudanças repentinas.
O indivíduo muda. Aquele segundo já passou e as coisas já não são mais como eram.

Quando nos ausentamos dos problemas alheios, enxergamos nitidamente nossa essência.
O que amamos, odiamos, o que faz brilhar os olhos, nossos planos, projetos, emoções.
É tudo nosso. Só pra gente!

Mas, as vezes, o imã atrai coisas que nem sempre nos pertence.
E essas coisas nos jogam em um furacão de sentimentos que não são nossos.
Nos culpam pela vida que escolheram e por suas frustrações.
Como se ser feliz fosse errado. Como se tudo que conquistamos não fosse por méritos nossos.
Entregam de presente uma bandeja cheia de negativismo e falsa moral.

Cansa.
E por isso, as vezes, choramos.
Como uma defesa do corpo, a fim de tirar o ruim de dentro.
De limpar, acalmar.
Para amenizar.
Simplesmente.

É difícil olhar pra si próprio e ver que  somos capazes de agir assim.
Desperdiçar energia, perder minutos com coisas nulas, compartilhar sentimentos ruins.
Gerar emoções ingratas.

A vida que temos aqui não é a mesma que eles têm por lá.
E não é justo sermos aqui quem não seríamos lá.

Quando isso acontece, cabe pegar um papel em branco e escrever algumas palavras.
Criar novos planos, desejar mudanças, mudar o rumo.
Pegar uma contra-mão, anarquizar.
Colocar em prática toda aquela desobediência civil que alimentava nossos pensamentos juvenis.
Abraçar os melhores presentes que a vida nos traz – ainda que o maior deles seja de carne e osso.
Desfrutar.
Sem medos ou pudores.
Sem frustrações alheias.
Sem problemas que não nossos e sem criar problemas por falta deles.

[FOME]

Para que entendam melhor, ele sempre foi excêntrico. Um artista.
Frequenta lugares que o mainstream não imagina que existam por trás de cada porta.
Assiste a filmes que ninguém encontra legenda, porque são idiomas indecifráveis.

E era isso.
Era engraçado, porque ele já me conhecia muito bem – mas nunca imaginei que ficasse tão nervoso com nosso encontro.
Também não imaginei que eu pudesse escolher cada detalhe a dedo, do que vestiria ao que poderíamos debater.
Quando cheguei lá, seu tom de voz era outro. Mais impostado, como se fosse mais maduro.
E eu parecia uma moça adulta, cheia de pose e perfume.

Ok. Seguimos.
Lá estava ele, preparando uma receita especial.
Como demoraria para ficar pronta, me serviu exatamente tudo que eu gostaria.
Sim, ele me calculou do começo ao fim. Paladar, olfato, audição.
Ele até enxergava como a ponta do meu nariz se mexia enquanto falava.
Acho que isso deve ser culpa do seu signo.
Virgem.
Todos os detalhes se tornam visíveis de tão perfeitos e bem executados.

Bom… Pela primeira vez, escutei suas histórias mais secretas, seus medos mais profundos, suas questões mais inspiradoras.
E pela primeira vez, tinha alguém ali do outro lado da mesa querendo saber de mim.
Dos meus sonhos, das minhas angústias, inseguranças, do meu passado, do que quero para o futuro.
E sim, ele prestava atenção em cada palavra, me fazendo sentir especial.

No fim, quando o jantar ficou pronto, já não tínhamos mais fome.
Já não tínhamos também as armas da aparência, afinal, não havia nada para ser conquistado ali.
No fim, a fome desapareceu, porque concluímos nossos objetivos.
Eu me alimentara dos seus ouvidos atentos e ele se saciara de inspirações para sua próxima obra.