Mini Conto (26)

Se quiser se juntar a mim nessa viagem ou em alguma parte do caminho, por favor, me avise.
Podemos viver juntos em nossa Paris ou, por que não, numa ilha paradisíaca, quem sabe.
Imaginar seus olhos se abrindo pelas manhãs e se fechando por todas as noites me faria bem.
Desculpe o romantismo obscuro repentino, me escapou por entre os lábios – como Bukowski quando via uma garrafa e bebia tudo em um só gole.

É isso, expressar o que a gente sente e pensa não é obsceno. Obsceno mesmo é o que a gente esconde dentro da gente.

E aí, você vem?

Mini Conto [25]

Foi só deitar pra sentir meu coração.
Ele palpitou alto, parecia acelerado.
Não entendi o porquê.
Respirei fundo e tentei acalmá-lo.
Não adiantou.
Pedi pra razão avisá-lo que não era ele quem estava no comando.
Mas, teimoso que é, insistiu em pulsar ainda mais forte.
Ai, eu reclamei.
E então, sem saber o que fazer, decidi escutá-lo.
Deixei que reclamasse, que falasse.
No fim, depois de todo seu desabafo, entendi que aquelas batidas aceleradas, intensas e descompassadas não pertenciam a nós.
Eram apenas reflexos dele. Reflexos que ecoam ali, dentro da gente.

[CERTAS INCERTEZAS]

Hoje eu acordei com a certeza de que a gente sente a mesma coisa.
Sei tanto que posso afirmar que estamos escutando a mesma música, sentindo a mesma angústia e nos perdendo nos mesmos pensamentos.

Não dá pra negar que existe uma conexão entre a gente.
Sim, mais do que gostaríamos, eu sei.

Acontece que não dá pra fingir que não existe.

Também acho que não dá mais seguirmos assim.
Tão próximo e tão distante.

É… quanto mais perto, mais nos afastamos.
Um passo pra frente, centenas de quilômetros para trás.

Mas olha como eu tinha razão.
Basta uma linha pra você me confirmar que estamos na mesma.
Que o que aperta o meu coração, tá apertando o seu também.
Que os motivos são tão iguais quanto diferentes.

O meu porque não pode ter o seu.
O seu porque não quer ter o meu.
Isso teremos sempre em comum.
Um ao outro.

A gente se entende sem dizer nada.

Um ao outro.
Como lembrança, talvez?
Como pesar, quem sabe?
Como reação química?
Como uma equação sem solução.

Aumentei a música por aqui, aquela que eu posso jurar que você está escutando.
Acredito que aconteça o mesmo por aí.
Quanto mais alto ela toca, mais o coração reclama.

No final, a gente suspira.

 

[Sobre suas meias]

Me lembro como se fosse hoje de abrir as suas gavetas, procurando uma camiseta para dormir, alguma roupa para usar no dia seguinte.
Lembro de como isso significava um monte de coisa além do tecido.

Aquilo representava uma noite juntos, uma mudança de planos que precisaria de uma roupa limpa para o dia seguinte, uma parte sua comigo e parte minha que deixaria de lembrança – o cheiro do perfume, do sabonete, tanto faz.

Lembro também de ter um prazer enorme em pegar as suas meias.
Não sei porque, mas elas caiam muito bem nos meus pés.

Furtei tantos pares que, quando me dei conta, tinha uma coleção de meias suas em casa.
Algumas mais novas, outras mais velhas, mas todas eram suas.
Sim. Eram pedacinhos seus que estavam comigo.

Lembro também do dia em que você percebeu que eu já  havia levado uma enorme quantidade delas pra casa e me pediu para parar com essa mania.
É… eu me lembro disso.

Pensando aqui, talvez eu estivesse usando um desses pés quando você me pediu para seguir.
Confesso que, entre todas as coisas que joguei fora, mantive as suas meias comigo.
Era um pedacinho seu, um pouco da nossa história, representados pelos meus furtos incansáveis.

Talvez eu também estivesse com uma delas quando nos encontramos por acaso.
E confesso: neste dia, também peguei mais um par de meias suas.

Sim, eles poderia ser o primeiro passo de uma nova história. Poderiam, mas não foram.
E tudo bem.
Por mais que agora todas elas estejam seguindo por novos caminhos, queria que soubesse  que vou me lembrar de você cada vez que abrir a minha gaveta.

 

Sobre o amor

Eu torço pra que um dia você entenda que o amor é algo mágico.
Que é aquela energia que corre dentro da gente e faz o mundo parecer mais bonito.
Que enche a gente de luz, que acalma a alma. Que faz minimizar o sono, a fome, o trânsito.
O lance de fazer brilhar os olhos, mudar os planos e andar sem rumo, sabe?
É… talvez você não saiba.
Então, vou te contar.
O amor transforma, deixa a gente mais completo, faz a gente querer ser cada vez melhor.
Explorar novas rotas, sem se preocupar com o destino.
Faz a gente querer conhecer novos sabores, explorar o próprio mapa.
E sim. Eu torço pra que um dia você seja capaz de abrir uma fresta nesse peito e deixar passar um vestígio dele.
Quando isso acontecer, você vai ver que o amor não te faz perder.
Ele soma.
Soma um com o outro, soma seus sonhos com os de alguém. Soma com viagens mais longas, com noites abraçadas. Soma dois mundos, cria um novo universo.
Torço pra que um dia você entenda que o amor não te tira de você. Ele só te coloca cada vez mais perto, mais próximo de você mesmo. Te ajuda a se auto-descobrir <<em todas as esferas>>.
Torço pra que um dia você não tenha medo de sentir que a sua vida não pertence somente a você.
E um dia, quem sabe, você descubra que o amor seja, talvez, a única forma de transformar o “eu” em “nós”.
A nossa passagem aqui não é uma viagem do próprio ego, ela não precisa ser solitária e recheada de vazios.
Ela pode ser completa.
E eu torço pra que um dia você seja capaz de sentir tudo isso.
<<Quem sabe um dia>>.

Scars

E é assim,
tem dano que não tem cura,
que vira cicatriz,
que fica pra sempre ali, lembrando o tamanho da ferida.

Tem lesão que vai com a gente pela vida toda,
que muda o que a gente achava que era.
Quem a gente achava que fosse.

Tem machucado que é do tamanho das nossas expectativas.
Tem ferida que arde do tamanho dos nossos sentimentos.

Todas essas marcas são histórias escritas.
Que, mesmo riscadas, rabiscadas ou páginas viradas, não podem ser apagadas.
São como marca de borracha por cima do lápis.
Ameniza, mas não apaga.

[Hora]

São exatamente 00h39. Segunda-feira.
Confesso.
Tem horas que eu me deparo com palavras e imagens que me deixam sem ar, que fazem verter algumas lágrimas em meus olhos.
É dele mesmo que eu tô falando.
Dele e do amor.
De como algumas coisas são capazes de se reinventar.
Como o nunca se torna sempre. E que pode ser para sempre.
É dele mesmo.
Do amor cravado no peito, sentido e imensurável.
Eu tô falando dele.
Que machuca, atropela. Que passa por cima como um furacão.
Ele, que era nós. Mas que sempre fui eu.
E termino falando dele. Que segue intrínseco.
Que me faz ler e ver e sentir e verter algumas lágrimas em meus olhos.

Ele não tem ideia do quanto machuca.
Já são 2h30 e mais de 400 dias.
Ainda não dormi.